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       A antropóloga norte-americana Liza Dalby é autora de uma façanha: é a única ocidental de que já se ouviu falar a se tornar uma gueixa.    Especialista em cultura japonesa, ela conhece o país desde os 16 anos, quando morou durante um ano na cidade de Saga (ilha de Kyushu), no final da década de 60. Desde então, sua vida foi marcada por várias passagens pelo Japão, onde aprendeu a falar a língua local e a tocar o shamisen (tradicional instrumento de cordas). Na década de 70, após se graduar em antropologia nos Estados Unidos, ela escolheu como tema de sua tese de doutorado a situação das gueixas no Japão contemporâneo.
    Dalby passou vários meses entrevistando e pesquisando, e foi assim que surgiu a idéia de ela mesma se tornar uma gueixa.
    Em 1978, ela recebeu o título de doutora pela Universidade de Stanford.
    E, em 1983, lançou seu livro "Geisha" (ainda inédito no Brasil). Quando surgiu o projeto de Steven Spielberg para filmar "Memórias de uma gueixa", em 1998, ela foi convidada para a função de consultora artística - prova de seu reconhecimento como especialista no assunto.

    A seguir, veja a entrevista que Liza Dalby concedeu ao Nihonsite:

   Nihonsite - Quanto tempo durou sua experiência como gueixa?
   Liza Dalby - Como parte de minha pesquisa, vivi durante nove meses na comunidade gueixa de Pontocho, em Kyoto. Como gueixa, meu nome era Ichigiku

.   Nihonsite - O que mais a fascinou nas gueixas?
   Liza Dalby - O fato de elas viverem em comunidades formadas apenas por mulheres que se dedicam a artes tradicionais como canto e dança, e também por serem capazes de construir uma carreira com esse estilo de vida.

   Nihonsite - A gueixa pode ser considerada um símbolo representativo da cultura japonesa?
   Liza Dalby - Bem, há o velho trio de imagens (Sakura, Fujiyama, gueixa) que formam os símbolos estereotipados do Japão ao redor do mundo. Mas, apesar de as gueixas preservarem as artes tradicionais do Japão, acredito que a maioria das pessoas percebe, hoje, que elas são realmente exóticas - inclusive para a própria cultura japonesa.

   Nihonsite - Por que existe essa confusão entre gueixas e prostitutas?    
   Liza Dalby - Essa é uma questão histórica. A profissão da gueixa nunca foi ilegal. Já a prostituição foi uma atividade aceita até 1957 no Japão, ano em que passou para a ilegalidade. Por isso, de um ponto-de-vista puramente técnico, pode-se dizer que gueixas e prostitutas não são a mesma coisa. Mas, como você sabe, na vida real as coisas não são tão simples.

   Nihonsite - Como assim?
   Liza Dalby - Desde que as gueixas surgiram, no século 17, foram publicadas várias leis proibindo-as de se envolverem em prostituição. As gueixas se enquadravam numa outra categoria de profissionais do entretenimento. Mas o próprio fato de que essas leis eram continuamente republicadas indica que, no passado, algumas gueixas se prostituíam.

   Nihonsite - E como as gueixas abordam essa questão atualmente?
   Liza Dalby - Elas são supersensíveis sobre esse assunto. Percebi que há uma tendência das pessoas de ver esse passado como algo mais "cor-de-rosa", mas acho que isso não é uma postura realista.

   Nihonsite - E como você avalia o relacionamento que uma gueixa mantém com seu danna (patrocinador que financia parte de seus custos)?
   Liza Dalby - Nesse caso, o relacionamento é íntimo e vem de longa data (e é comum que o danna seja um homem casado). Você chamaria isso de prostituição? Eu não, mas algumas pessoas o fariam.

   Nihonsite - Fora do Japão, criou-se uma imagem um tanto quanto irreal das gueixas. Você acha que elas podem ser realmente compreendidas pelos ocidentais?
   Liza Dalby - Quando escrevi meu livro "Geisha" (em 1983), explicando as origens da profissão e por que ela continuava a existir, eu pensei que iria acabar com a mitificação construída em torno das gueixas. Mas obviamente isso não aconteceu. Para a maioria dos ocidentais, a gueixa representa a imagem de uma feminilidade mítica e exótica, e eu duvido que isso mude. A maioria das pessoas prefere o mito.


  

       Colaborador: Jornalista - Ricardo Koiti Koshimizu e-mail:ricardo_koiti@yahoo.com