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A casa das gueixas se chama oki-ya. Embora
hoje nem todas as gueixas vivam de fato no oki-ya, normalmente
elas começam a carreira morando nesse local. A okami-san,
proprietária do estabelecimento, é a responsável pelos
negócios e pela formação das gueixas. Ao mesmo tempo
em que é a autoridade da casa, atua como uma espécie
de segunda mãe para elas. Em geral, a própria okami-san
é uma ex-gueixa.
Os bairros onde as gueixas moram são conhecidos
como hanamachi, e os principais bairros estão localizados
nas cidades de Kyoto e Tokyo. Uma gueixa iniciante é
chamada de maiko - embora também exista a denominação
tamago para as aprendizes mais novas.
Antigamente, não era raro as famílias
pobres do Japão venderem suas filhas para bordéis, com
o objetivo de reduzir o número de bocas para alimentar.
Se essas crianças fossem consideradas bonitas ou muito
inteligentes, poderiam ser treinadas para se tornarem
gueixas, tendo acesso a uma formação privilegiada.
Hoje, as poucas jovens que ingressam numa oki-ya
o fazem por livre e espontânea vontade, muitas vezes
atraídas por uma visão romantizada da profissão ou pelo
amor pelas artes tradicionais do país.
A vida de uma aprendiz é muito dura. Inicialmente,
antes de se tornar maiko, ela fica encarregada dos afazeres
domésticos (limpeza e organização do oki-ya), e precisa
se submeter a vários anos de rigoroso aprendizado, em
que aprende a dançar, cantar e tocar instrumentos (como
o shamisen, tradicional instrumento de cordas japonês).
Além dessas habilidades, a formação de uma gueixa também
pode incluir as artes da caligrafia, da pintura e da
cerimônia do chá.
Patrocinador. Os custos
do treinamento e dos quimonos são extremamente altos.
Por isso, a figura do danna é crucial para várias gueixas.
Ele é o cliente especial que financia esses gastos,
e com quem a gueixa mantém uma relação duradoura e íntima
- embora muitas gueixas prefiram não ter esse tipo de
relacionamento. Não é raro que o danna seja um homem
casado, nem que a gueixa se torne seu amante. Mas uma
verdadeira gueixa só se envolve sexualmente com um cliente
quando assim desejar ou quando seu relacionamento vem
de longa data (como é o caso do dana) - mas esse é um
ponto de difícil compreensão tanto para os ocidentais
como para os próprios japoneses.
Uma explicação para essa posição ambígua
que as gueixas ocupam na sociedade japonesa (e que para
alguns se aproxima da prostituição) é oferecida pela
jornalista inglesa Lesley Downer, que lançou neste ano
o livro "Women of the pleasure quarters - the secret
history of the geisha". Uma das idéias presentes no
livro é a de que as gueixas oferecem a fantasia de sedução
e romance para homens ricos e poderosos, numa sociedade
onde há pouco espaço para tais sentimentos. "Na época
do auge das gueixas, as relações entre homens e mulheres
no Japão se davam de modo diferente do modo como ocorriam
no Ocidente.
Todas as classes sociais realizavam casamentos
arranjados, com exceção das classes mais pobres. O objetivo
do casamento era criar alianças entre famílias; contrariar
a família e casar por amor era algo impensável", escreve
Downer.
Uma vida mais livre e independente?
Com a sofisticada formação que têm e o estilo de vida
que levam, as gueixas são mulheres diferenciadas em
seu país.
Uma japonesa casada, mesmo quando trabalha,
passa boa parte do tempo cuidando da casa e dos filhos.
"Já as gueixas não se ocupam com as tarefas domésticas
e estão livres da rotina de uma dona de casa; ao invés
disso, elas usam seu tempo para estudar e se desenvolver",
diz a escritora britânica Lucy Moss.
"Mas é claro que há muitas restrições, problemas e dificuldades
nesse estilo de vida", ressalta Moss.
"Ser uma gueixa implica trabalho duro:
é preciso estudar, apresentar uma cara sempre alegre
e agradável, ter a melhor aparência possível e trabalhar
por várias horas seguidas. Além disso, uma gueixa que
tenha um patrocinador pode ter de abrir mão de boa parte
de sua liberdade, porque o danna muitas vezes é quase
um marido. E não se deve esquecer que as gueixas se
submetem à rígida hierarquia de sua própria comunidade.
Não é uma vida fácil!".
Por outro lado, uma gueixa de sucesso
pode desenvolver uma longa carreira e conquistar sua
independência financeira. Nesse sentido, a vida de uma
gueixa é muito diferente da vida de uma mulher japonesa
convencional.
Mas eu não diria que é algo mais fácil, ou melhor;
isso depende da personalidade da mulher e do que ela
entende por independência e 'liberdade'", pondera Moss.
Já Lesley Downer conta, em seu livro, que o estilo de
vida que as gueixas levam se aproxima, em certos aspectos,
do dia-a-dia de uma mulher ocidental "independente"
(a dedicação à própria vida profissional seria um dos
pontos em comum).
Outro ponto destacado por Downer é que
"as comunidades formadas pelas gueixas são uma espécie
de imagem invertida da sociedade japonesa; nessas comunidades,
são as mulheres, e não os homens, que detêm o poder;
quando uma criança está para nascer, todos esperam por
uma menina, e não um menino, para que a linhagem da
gueixa-mãe possa continuar". Mas essa vida diferenciada
cobra seu preço: apesar de não serem explicitamente
rejeitadas pela sociedade japonesa, as gueixas não se
inserem no convívio social.
Quando uma adolescente decide se tornar
uma gueixa, a reação dos pais quase sempre é negativa,
para dizer o menos; e o casamento, para uma gueixa,
é algo impossível, a menos que se desista da profissão.
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